quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Berço de ouro
Nasci em berço de ouro. Tive a sorte de ter sido gerado em uma família com ótimas condições financeiras, onde nunca passei nenhuma necessidade e, ainda por cima, tive certos luxos que não são comuns a qualquer pessoa. Uma casa grande, com um belo quintal, onde eu podia correr e brincar a vontade. Televisão, video-games, brinquedos, comida boa e tudo o que se podia desejar! Para mim, a vida era maravilhosa.
Meu pai sempre foi um homem extremamente trabalhador, e batalhou duro para conquistar tudo isso para seus filhos. Minha mãe sempre cuidou da casa e nos educou, tentando criar pessoas boas para a sociedade em que vivíamos. Tudo sempre seguiu assim. Sendo o caçula, via meus irmãos mais velhos com carros novos, saindo com os amigos, namoradas, e nenhuma dificuldade parecia se abater em nós. Claro, sempre vi coisas na tv sobre pessoas passando fome em algum lugar da Africa, guerras acontecendo em algum lugar do Oriente Médio, uma imposição dos países Europeus como "o centro do mundo", mas nunca liguei! Isso não era parte da minha rotina. Afinal, se eles estavam com fome, porque simplesmente não compravam comida no mercado? Se brigavam, uma hora cansariam! Eu sempre cansei de brigar com minha irmã, então por que eles não? Tudo era muito fácil de se resolver.
E então, conforme fui crescendo, comecei a reparar em certas circunstâncias. Na escola, nem todos tinham as mesmas coisas que eu. Por que aquele garoto está com a calça toda remendada? É tão feio! Por que não compra uma nova? E aquele outro que nem tem celular! Como assim aquela garota não tem dinheiro para comprar o lanche da cantina? São míseros 5 reais! Meu pai me dá isso todo dia! E as perguntas só iam aumentando a cada dia. Em certo momento, comecei a refletir; quanto mais eu saia de casa, mais eu via como o mundo é injusto.
Percebi que era privilegiado no momento em que me olhei no espelho: loiro, olhos claros, branco, família da classe média. Eu não tinha muita dificuldade de conseguir certas coisas. Nunca fui impedido de entrar em nenhuma casa noturna; nunca a policia me parou na rua, durante a noite, para me humilhar; nunca alguém se levantou do lugar onde estava sentado só porque eu sentei. Nunca sofri preconceito.
Sempre tive estudo. Meus pais me colocaram em escolas particulares, onde eu aprendia muito bem. Mas, em contrapartida, a família da minha mãe tinha bem menos condições do que nós. Claro, não passavam fome, mas tinham somente o essencial; nada de luxos extravagantes igual a mim. E, convivendo em bairros pobres, achava estranho. Como ele não sabe quem foi Vinicius de Moraes? Será que isso é preguiça de ler? E foi aí que percebi que, na verdade, não era preguiça, e sim falta de acesso a isso. Não tinham toda a facilidade a informação que eu tinha. É muito fácil virar e falar: "Ah, era só ter ido até uma biblioteca". Mas como ir em uma se, ao entrar, vão te olhar torto? Vão te revistar na entrada para ver se carrega um arma, e também na saída para ver se não roubou nada. E, caso consiga o livro, como ter tempo para ler se é preciso trabalhar para ajudar nas despesas da casa? Carregar tijolos e sacos de cimento o dia todo cansa, e a noite tudo o que quer é descansar para, no outro dia, fazer tudo de novo. Uma vida onde se trabalha muito, mas se ganha muito pouco.
Passei na faculdade, sem cotas, apenas fazendo a prova. Puro mérito! Foi uma competição extremamente justa entre eu, o rapaz que sempre teve os melhores estudos, graças ao dinheiro da minha família, e o rapaz negro, pobre, que teve péssimos estudos públicos e nunca pode ler mais do que lhe davam. "Não são necessárias cotas, pois isso tira a igualdade! Se querem ser iguais, que mereçam isso!" Está certo. Eu realmente mereci porque me esforcei mais.
É muito fácil falar que não há injustiça, não há preconceito, não há discriminação, quando se está do lado vencedor. Mas, se você abrir os olhos e conseguir enxergar além do que lhe introduzem a força na mente, verá que o mundo é sim injusto. Há uma desigualdade muito grande perante nós, mas a ignorância não nos deixa ver! E o pior é que, às vezes, até quem sofre isso acha normal. São felizes porque não sabem que são injustiçados. Como dizem, a ignorância é uma benção! Uma pena eu não tê-la mais. Talvez eu fosse mais feliz se simplesmente curtisse o futebol de domingo e reclamasse dessa gente que quer ter mais direitos do que os outros.
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